sábado, 15 de setembro de 2012

Crise no SAMU




  CRISE NO SAMU
Na segunda-feira, 13 de agosto, na condição de presidente do Conselho Federal de Medicina de Roraima, participei de uma reunião com médicos, enfermeiros, funcionários administrativos e Coordenação do Serviço Móvel de Urgência (SAMU) da Secretaria Municipal de Saúde de Boa Vista, na tentativa de encontrar uma saída para tirar da crise aquele serviço.
O SAMU atende todas as classes da população e, é um dos poucos serviços públicos que ainda tem credibilidade. Isto se deve exclusivamente à competência e persistência da equipe multiprofissional que nele atua.
As condições de trabalho são péssimas. Desde as instalações da Central de Regulação, sem o mínimo de conforto, às ambulâncias em péssimas condições para trafegarem. Sem manutenção, os veículos se encontram com pneus carecas, vidros quebrados, faróis queimados, macas deterioradas e outros equipamentos necessários ao atendimento de urgência, sem as mínimas condições de utilização. Não há segurança para os profissionais, nem para os doentes durante o transporte. Há qualquer momento pode acontecer o pior, ou seja, um acidente com a equipe de remoção juntamente com o removido. Para completar o caos, há um atraso constante no pagamento dos salários de seus funcionários.
É necessário urgentemente que as três gestões de governo – municipal, estadual e federal – e os órgãos fiscalizadores, resolvam de uma vez por todas estas questões. Informações prestadas pela própria coordenação, é que, há dois anos, duas ambulâncias novas compradas para atender o SAMU de Boa Vista, se encontram no pátio da empresa fornecedora na cidade de São Paulo. Tal fato se deve a incapacidade administrativa da Prefeitura Municipal de Boa Vista em fazer com que estes veículos cheguem à nossa capital.
O SAMU não é um serviço de assistência para os menos desfavorecidos. O SAMU atende todos os seguimentos da população. Portanto usuários do SUS ou não, há qualquer momento podem precisar desse serviço. Pensem nisso senhores gestores.

Dr. Wirlande Santos da Luz
Presidente do CRM-RR

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A qualidade dos médicos no Brasil




JOSÉ BONAMIGO

FLORENTINO CARDOSO


O Brasil é medalhista no número de escolas médicas. Temos a medalha de prata, com 196 escolas em atividade. Perdemos apenas para a Índia. China e EUA, países com população bastante superior --e, no caso dos EUA, muito mais rico-- contam com 150 e 137 escolas médicas cada.
A expansão se acentuou desde a década de 1990, principalmente no ensino privado, mas também no público. Muitos cursos, inclusive de instituições públicas, abrem sem hospital-escola ou mesmo uma rede básica de ambulatórios para o treinamento prático.
Não bastasse a expansão desordenada, vivemos uma invasão de médicos formados no exterior, muitos deles brasileiros, vindo principalmente de Cuba e da Bolívia.
Segundo estimativas do Colégio Médico da Bolívia, há 25 mil brasileiros em cursos de medicina lá. Ausência de vestibular, mensalidades irrisórias e o baixo custo de vida comparado com o Brasil atraem os jovens para o eldorado boliviano.
O problema é que, além de essas escolas terem centenas de alunos por turma, nelas falta tudo, inclusive pacientes para o treinamento prático. A tentativa de revalidação de diploma desses candidatos a médicos revela números alarmantes.
Nossas universidades estatais têm autonomia para realizar a avaliação de egressos de universidades estrangeiras. Por causa da baixa qualidade das avaliações em alguns locais e por pressão de entidades médicas, o Inep criou em 2010 o Revalida, exame para unificar esta avaliação.
Aderiram ao projeto piloto 37 instituições públicas de ensino superior. Na primeira edição, de 517 inscritos, somente dois foram aprovados. Na segunda edição, em 2011, de 677 inscritos, apenas 65 foram aprovados (9,6%). Ainda não temos data para o exame em 2012, por quê?
Cesar Habert Paciornik
Hoje, as escolas médicas no Brasil oferecem 16.892 vagas por ano. Nos programas de residência, padrão para formação de especialistas, há 10.196 vagas de acesso direto disponíveis para os recém-formados.
Desconsiderando a ociosidade nos programas de residência e as desistências durante o curso, podemos inferir que só 60% dos médicos têm acesso à especialização. Entram no mercado, sem treinamento adicional, mais de 6.000 médicos ao ano.
O exame realizado desde 2005 pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) é prova da péssima qualidade da formação médica no Brasil. Em sete anos, 46,7% dos 4.821 alunos que realizaram o exame foram reprovados.
Como a adesão era voluntária, é cabível supor que os alunos que se consideravam mais bem preparados prestaram o exame. Aguardamos os números do exame de 2012, que será obrigatório para os formados no Estado de São Paulo, mas ainda não restringirá o exercício profissional em caso de reprovação.
Cabe ressaltar que o Revalida e o exame do Cremesp são provas básicas, que avaliam a capacidade de diagnóstico e tratamento de doenças frequentes. Muito diferentes dos exames de seleção para a residência, que têm caráter eliminatório e são mais abrangentes e complexos.
Tal contingente de médicos mal formados, sem especialização, entra no mercado de trabalho e nele fica por cerca de 40 anos. Muitas vezes não sabe coletar a história clínica nem examinar o paciente. Solicita exames além do necessário, pois não soube chegar ao diagnóstico na consulta.
São médicos que não sabem interpretar exames e terminam encaminhando o paciente para recursos de maior complexidade, superlotando hospitais e prontos-socorros, abarrotados de casos que deveriam ter sido resolvidos no posto de saúde.
Não existem duas medicinas. Os que defendem a abertura indiscriminada de faculdades com o argumento de ampliar o acesso da população aos médicos, ou como ouvimos frequentemente para "formar médicos para o SUS", são os responsáveis pela precarização da saúde dos brasileiros e pelo desperdício dos insuficientes recursos que nosso sistema de saúde dispõe.
Está instalado o SUS pobre de resolubilidade para os mais carentes. Enquanto isso, os políticos vão se consultar nos hospitais privados e nos grandes hospitais públicos universitários, onde só entra médico com título de especialista.
JOSÉ BONAMIGO, 35, clínico e hematologista, é tesoureiro da Associação Médica Brasileira; FLORENTINO CARDOSO, 50, cirurgião oncológico, é presidente da Associação Médica Brasileira
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